A evolução da remistura
A síndrome de shmoo
Shmoos, quando fritos, têm gosto de frango. Eles produzem leite e botam ovos, mas não se alimentam, apenas respiram. Parecem um pino de boliche gorducho com pernas, tem pele branca e macia, sobrancelhas e alguns bigodes. Eles não tem esqueleto e se reproduzem assexuadamente. Eles também são afáveis com seres humanos, mas isso não vem ao caso. Ah, sim, eles não existem1.
Larvas são estágios especializados do ciclo de vida de muitos organismos. Podem se reproduzir assexuadamente, mas por definição não se envolvem sexuadamente. O período larval pode ser curto ou durar mais que a forma adulta. Normalmente habitam um ambiente diferente dos adultos, às vezes radicalmente diferente. Larvas podem ter um corpo sofisticado com estruturas especializadas para caçar, coletar alimento e/ou se locomover.
As consequências de um ciclo de vida indireto seriam óbvias, se não fossem surpreendentes. Adultos e larvas podem evoluir de maneira independente2. Não que uma larva se “destaque” da forma adulta e passe a viver por si própria (apesar de ser uma discussão interessante). O que quero dizer é que as larvas podem mudar sua forma ao longo do tempo sem que isso cause qualquer alteração no adulto, e vice-versa3. Ou seja, você pode encontrar espécies distantes (evolutivamente) cujas larvas são semelhantes e também encontrar espécies irmãs cujas larvas são bem diferentes uma da outra. Dois ouriços australianos passaram por esta última experiência e causaram um furorzinho 4 milhões de anos depois, quando biólogos descobriram o evento.
Entre as larvas livre-natantes de invertebrados marinhos podemos destacar 2 tipos básicos:
- Larvas que se alimentam.
- Nascem de óvulos pequenos liberados em grande quantidade pela mãe.
- Passam semanas na coluna d’água se alimentando até a metamorfose.
- Larvas que não se alimentam.
- Nascem de óvulos grandes (com bastante vitelo) liberados em pequena quantidade pela mãe.
- Passam poucos dias na coluna d’água até a metamorfose.
Nos equinodermos, a evolução de um modo larval para outro ocorreu diversas vezes em linhagens independentes.

Imagem da esquerda mostra a forma dos equinóides adultos e a forma de suas larvas; ouriços regulares no ramo em vermelho. Na direita vemos 3 evoluções independentes da larva shmoo; ramo vermelho com os ouriços australianos Heliocidaris. (Figs. 2 e 3 de Wray & Bely 1994)
Enquanto uma larva que se alimenta (plúteos, nesse caso) possui um esqueleto interno sustentando longos braços ciliados que criam correntes4 e capturam microalgas do plâncton, a larva que vive de reservas não tem quase nenhuma estrutura funcional. O curioso é que mesmo tendo aparecido em linhagens diferentes de equinodermos, estas larvas têm a mesma cara. Cara de pino de boliche gorducho, mas sem pernas e possivelmente sem gosto de frango; cara do ser imaginário criado por Al Capp, o shmoo.
A síndrome de shmoo é essa coincidência morfológica que acomete larvas de equinodermos com acúmulo de reservas e sem a capacidade de capturar alimento. Por que e como larvas que surgiram em linhagens separadas por milhões de anos têm a mesma cara? Como teria sido a transição entre estes dois tipos de larva? Como a larva plúteos perdeu suas estruturas? Será que as larvas shmoos de diferentes linhagens se formaram do mesmo modo ou será que processos diferentes podem originar shmoos semelhantes?
As diferenças entre larvas não são apenas morfológicas. O ouriço-do-mar H. tuberculata tem uma larva plúteos que pode durar 6 semanas, ou seja, após a fecundação a larva passa um bom tempo nadando e capturando alimento para enfim tornar-se um ouricinho (ver um esquema do ciclo de vida aqui). A situação de H. erythrogramma já é um pouco mais garantida. Como seus óvulos possuem muitas reservas, a larva shmoo se desenvolve rapidamente e em apenas 3 dias o jovem está pronto. Esta diferença no tempo larval deve ter influenciado as relações ecológicas da espécie e talvez seu padrão de distribuição. Teria existido uma condição ecológica que favoreceu a diminuição do período larval ou foi apenas uma conseqüência da formação de óvulos com grandes reservas (que por sua vez pode estar relacionada com sua alimentação)?
Os dois tipos de larvas também apresentam diferenças já no início das divisões celulares, após a fecundação. A inibição de alguma linhagem celular poderia ter causado a perda dos braços e formação de uma massa semi-amorfa que chamamos de shmoos? Foi o aumento do vitelo que desencadeou as mudanças ou houve algum tipo de reprogramação do desenvolvimento?
Deve ter sido mais ou menos isso que os biólogos se perguntaram ao descobrir ouriços-do-mar praticamente idênticos com larvas tão diferentes.
Esta é só uma pequena incursão no fabuloso mundo das larvas… Cabe lembrar que boa parte destas perguntas ainda estão em aberto, mas sendo investigadas ativamente. Para quem quiser se aprofundar no assunto o Pharyngula tem um post discutindo o modelo evolutivo5 da transição de uma larva plúteos para uma larva shmoo (em inglês).
Por fim, se alguém não se lembra do shmoo este vídeo pode ajudar (tentarei arrumar um da larva shmoo, pra comparar
):
- Apesar de já terem sido confundidos com OVNIs. ↩
- Eventualmente vou discutir a origem das formas larvais. ↩
- lembrando que larva e adulto de um mesmo indivíduo são um contínuo no ciclo de vida e, portanto, possuem a mesma sequência genômica ↩
- Strathmann R. The feeding behavior of planktotrophic echinoderm larvae: Mechanisms, regulation, and rates of suspension feeding. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology. 1971;6(2):109-160. 10.1016/0022-0981(71)90054-2 ↩
- Ele discute estes dois artigos: 1. Wray GA. Parallel Evolution of Nonfeeding Larvae in Echinoids. Systematic Biology. 1996;45(3):308-322. 10.1093/sysbio/45.3.308 2. Smith MS, Zigler KS, Raff RA. Evolution of direct-developing larvae: selection vs loss. BioEssays. 2007;29(6):566-71. 10.1002/bies.20579 ↩
| Imprimir artigo | Este artigo foi escrito por nelas em dezembro 6, 2009 às 2:00 am, e está arquivado em Embriões, larvas e afins. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |

